
Pesquisadores da Universidade de São Paulo estão desenvolvendo uma metodologia capaz de identificar de onde vêm a carne bovina, a soja e a madeira produzidas no Brasil. O estudo analisa características químicas e isotópicas dos produtos para determinar em qual região ou bioma foram originados. A pesquisa é conduzida pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP, o Cena/USP, em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, o Ipen, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq/USP, e a Embrapa. O trabalho conta com apoio da Fapesp e reúne amostras das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil.
A lógica da tecnologia é que cada região tem uma combinação própria de clima, solo, relevo, vegetação e disponibilidade de água. Essa combinação forma uma espécie de "assinatura química" que fica registrada nos organismos — seja na carne bovina, nos grãos de soja ou na madeira. No caso da pecuária, a pastagem e a água consumida pelo boi podem revelar onde o animal foi criado, já que a composição da água varia conforme regime de chuvas, temperatura, altitude e localização geográfica.
Os dados coletados em laboratório serão organizados em uma base de referência e processados por ferramentas de inteligência artificial e modelos estatísticos, que serão treinados para reconhecer padrões e comparar novas amostras com as já catalogadas. Segundo o pesquisador Luiz Martinelli, do Laboratório de Ecologia Isotópica do Cena/USP, a composição isotópica de plantas e animais reflete as condições do ambiente onde se desenvolveram.
A tecnologia ganha relevância diante das exigências crescentes da União Europeia, que condiciona a importação de alimentos ao cumprimento de critérios sanitários, de rastreabilidade e de sustentabilidade. Para o pesquisador Dhemerson Conciani, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e do MapBiomas, a rastreabilidade é importante para proteger áreas preservadas e comunidades tradicionais, além de evitar que produtores sustentáveis sejam prejudicados no acesso aos mercados. A metodologia poderá funcionar como uma camada independente de verificação, complementando registros documentais, identificação individual de animais e monitoramento por satélite.
Fonte: Portal Agroneg.




