
Uma prática que vem ganhando espaço entre produtores rurais da Austrália chama atenção: o uso de vidro moído, feito a partir de garrafas recicladas, como insumo agrícola rico em silício. A ideia pode parecer estranha, mas não se trata de jogar cacos no solo. O vidro passa por um processo industrial em uma fábrica instalada em Brisbane, onde um equipamento cilíndrico revestido de cerâmica, com esferas também de cerâmica, pulveriza as garrafas até virarem pó fino ou grânulos para uso na lavoura. A unidade já produz cerca de 20 toneladas por semana e recebeu investimento de aproximadamente 4 milhões de dólares australianos.
O produto já foi testado em sistemas bem diferentes: grãos, cana-de-açúcar, maçã, uva, produção de leite, pecuária de corte e pastagens. O elemento de interesse é o silício presente no vidro, que estudos apontam como benéfico para plantas submetidas a estresses como seca, salinidade, pragas e doenças. Uma meta-análise publicada em 2026, com 410 observações de 13 estudos, encontrou efeitos positivos do silício sobre milho em condições de déficit hídrico.
O agrônomo Peter Norwood afirma recomendar o produto há anos e relata que propriedades que o adotaram observaram potencial de avanço de 25% a 30% na produtividade em certas condições. Já o produtor Tony Donovan aplicou o material em parte de uma área de 14 mil hectares na região de Warrnambool e viu o ganho de peso do gado durante o inverno subir de 0,7 a 0,8 kg por animal ao dia para até 1,4 kg e 2 kg por dia — embora o sistema tenha passado por outras mudanças de manejo no mesmo período, o que impede atribuir o resultado só ao silício.
A tecnologia avança num momento em que praticamente todo o fertilizante nitrogenado usado na Austrália vem do exterior, segundo a ABC Rural. Ainda assim, especialistas deixam claro: não basta triturar vidro comum e aplicar no campo. O produto precisa ter controle de granulometria, composição química, ausência de contaminantes e adaptação ao tipo de solo e cultura. Resultados obtidos em solos australianos não necessariamente se repetem em ambientes tropicais.
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